21/05/2009Tese apresentada no Congresso Brasileiro das APAEs em Vitória – ES

1. INTRODUÇÃO
A Laringomalácia é a mais freqüente alteração congênita da laringe1. Caracterizada pelo colapso de várias estruturas da laringe, a laringomalácia resulta em obstrução das vias aéreas e estridor inspiratório2, sendo a causa mais comum de obstrução sintomática das vias aéreas superiores em bebês3. Estima-se que a laringomalácia seja responsável por 75% dos casos de estridor inspiratório congênito3.
A maioria dos casos de laringomalácia tem bom prognóstico e resolução espontânea nos primeiros dois anos de vida da criança4. Porém, em aproximadamente 22% dos casos, a obstrução da via aérea pode evoluir com complicações graves3. Nos casos em que há piora do estridor ou agravamento do quadro respiratório, é realizada a divisão cirúrgica das pregas ariepiglóticas, o que melhora os sintomas na maioria das crianças3,5.
A etiologia da laringomalácia ainda é desconhecida. A teoria mais aceita atualmente é que seja proveniente de um distúrbio neurológico que provoca uma hipotonia difusa das estruturas da supraglote e incoordenação motora global6. Existe uma associação entre o refluxo gastroesofágico e a laringomalácia que pode ser explicada pelas relações anatômicas e embrionárias entre esôfago, estômago e vias aéreas, uma vez que estes órgãos têm origem em porções adjacentes do intestino primitivo e compartilham a inervação pelo nervo vago (Fig.1). Portanto, a origem das duas disfunções pode ser comum e estar relacionada ao sistema nervoso periférico2.

Figura 1 Nervo Vago
Fonte: NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
O nervo vago emerge do crânio pelo forame jugular. O trauma no crânio é a lesão mais freqüente ao nascimento, com grande variação quanto à gravidade. É possível que uma lesão no crânio durante o parto, que leve a uma compressão do forame jugular, possa estar implicada na origem da laringomalácia.
O tratamento osteopático craniano tem por objetivo liberar o movimento existente entre os ossos do crânio. Em casos de laringomalácia, esse tratamento deve ser direcionado especificamente para a base occipto-craniana, para obter a descompressão do forame jugular, permitindo melhor irrigação sangüínea e drenagem venosa7.
Portanto, o objetivo deste estudo foi descrever os resultados da Osteopatia craniana em duas crianças com laringomalácia.
2. RELATO DE CASO
2.1 CASO 1
J.F.M.A., 05 meses, sexo masculino, residente na cidade de Imperatriz-MA, nascido de parto normal prolongado, com uso de fórcipe, portador de Laringomalácia e Paralisia Cerebral. A principal queixa da mãe era o estridor intermitente que a criança apresentava, melhorando apenas durante o sono, e a regurgitação constante após as mamadas. Foi feito diagnóstico de Laringomalácia e indicada a correção cirúrgica. Porém, devido à paralisia cerebral, optou-se por não realizar a cirurgia. A mãe então procurou o serviço de fisioterapia da Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (APAE), onde foi realizado o atendimento osteopático.
Avaliação Pré Tratamento
Foram realizados testes de reflexos e reações. As alterações mais evidentes foram: a presença de tônus flutuante e reação de extensão, posição do tórax em inspiração, rotação interna de membros superiores e cruzamento de membros inferiores, durante toda a avaliação foi observado o estridor inspiratório que piorava ao movimento excessivo com a criança, e o refluxo gastroesofágico, seguido de choro. A criança apresentava ainda baixo peso e atraso no desenvolvimento motor. A mãe relata que a criança apresentava dificuldade pra dormir à noite, acordando com freqüência e que o estridor persistia mesmo durante o sono.
Protocolo de Tratamento
O tratamento englobou técnicas da Osteopatia Craniana descritas por Leon Chaitow (2001)7, John Upledger (1999)8 e Marcel Bienfait (1999)9. O tratamento foi realizado durante 08 semanas, com uma visita semanal.
Na primeira sessão, foi feita a observação, avaliação e tratamento do sistema crânio-sacro, da sincronia da abóbada craniana, pois a mesma apresentou restrição nos movimentos de flexão do osso temporal e disfunção esfenobasilar em flexão, além de palato duro em estreitamento. Foi aplicada então a técnica da estimulação da sucção com a introdução do dedo mínimo na boca do bebê com o uso de luvas, para estimular o movimento do palato, vômer e esfenóide, proporcionando mobilidade e liberação de toda a articulação esfenobasilar.
Foi aplicada também a técnica para descompressão da articulação Atlas-occipital. Na avaliação dos diafragmas pélvico, torácico e cervical, observou-se grande restrição fascial no diafragma torácico em direção anterior do pescoço. Com a liberação desta restrição, por meio da técnica fascial indireta, houve diminuição significativa do estridor, a ponto da mãe pensar que a criança estivesse dormindo. A diminuição do estridor persistiu pelos 23 minutos seguintes, tempo este utilizado para aplicar o restante da técnica.
Na segunda sessão, a mãe relatou melhora do sono e da regurgitação. A conduta foi mantida.
Nas três sessões seguintes, a mãe relatou diminuição da regurgitação e do estridor com pausa total por alguns minutos quando acordado, e melhora do sono. Houve um intervalo de 02 meses no tratamento, por motivos particulares da mãe. A criança retornou mantendo a melhora do quadro, mesmo após essa interrupção.
Na sexta sessão, a conduta foi mantida. Na sétima sessão, a mãe relatou estridor esporádico durante o dia e grande melhora da regurgitação e amenização do choro, que era freqüente no início.
Na oitava sessão, não se observou mais a presença do estridor. O tratamento foi então finalizado.
Avaliação Pós Tratamento
Foi feita uma nova avaliação e observaram-se os seguintes resultados: Ausência do estridor e ausência do refluxo. Segundo relato de outros profissionais que acompanham o paciente (hidroterapeuta, cinesioterapeuta e musicoterapeuta) houve grande evolução do quadro apresentado pela criança desde o início do tratamento osteopático.
2 CASO 2
A.A.V.A., 02 meses de idade, sexo masculino, residente em Cuiabá-MT, portador de Laringomalácia. A principal queixa da mãe era o estridor intermitente que a criança apresentava, inclusive durante o sono, e o refluxo gastroesofágico freqüente, seguido de choro.
Avaliação Pré Tratamento
O paciente A.A.V.A., foi submetido a avaliação onde foram realizados testes de reflexos e reações neurológicas. O parto foi normal, porém difícil. As alterações mais evidentes foram: a posição do tórax em inspiração, o estridor intermitente dormindo e acordado durante toda a avaliação, com e sem choro e refluxo gastroesofágico seguido de choro. A mãe relatou ainda que o bebê apresentava sono interrompido com freqüência durante a noite.
Protocolo de Tratamento
Foram aplicadas 05 sessões, uma a duas vezes por semana.
Na primeira sessão, foi feita a observação, análise e restabelecimento da mobilidade do sistema crânio-sacro. À avaliação da abóbada craniana, observou-se pequenas oscilações nos movimentos de flexão do temporal e disfunção esfenobasilar em flexão e palato duro em estreitamento. Foram aplicadas as mesmas técnicas descritas anteriormente. Foram então avaliados os diafragmas pélvico, respiratório e torácico. Ao tentar liberar o diafragma respiratório, foi evidenciada grande tensão fascial local com aumento do choro. Após a liberação dessa tensão, ocorreu ausência do choro seguido de suspiro de alívio com diminuição significativa do estridor. Além disso, havia restrição em direção à região do osso hióide, que respondeu com liberação em seguida.
Na segunda sessão, a mãe relatou diminuição do refluxo gastroesofágico e melhora no sono, além de diminuição do estridor com pausa total por alguns minutos. A conduta foi mantida.
Na terceira e quarta sessões, observou-se grande melhora na sincronia da abóbada craniana, com diminuição do estridor com pausa total por alguns minutos quando a criança estava acordada. Durante o sono, a criança não apresentava mais o estridor. A mãe relatou ainda diminuição do refluxo gastroesofágico e melhora no sono. Na quinta sessão, a criança chegou à clínica sem a presença do estridor. A mãe relatou que a diminuição do refluxo gastroesofágico se manteve. O tratamento foi então finalizado.
Avaliação Pós Tratamento
À avaliação, a criança apresentou: Ausência do estridor e diminuição do refluxo. A mãe relatou importante melhora da qualidade e quantidade de sono durante a noite.
3. DISCUSSÃO E CONCLUSÔES
Os casos apresentados sugerem grande melhora dos sinais e sintomas da laringomalácia, com boa evolução do quadro geral do paciente com o uso da osteopatia craniana.
Porem, mais estudos são necessários, com maior número de participantes e grupo controle, para se avaliar a eficácia da osteopatia craniana na laringomalácia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Tese apresentada em Novembro de 2008
Dra. Ilma Aparecida de Souza